Escrevo mais para mim que para alguém em especial... porque me reconheço no que escrevo e porque escrever faz parte de mim
Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007
uma carta do passado

  3 de Dezembro de 2013, 19h45

       Ann leu a mensagem mais três vezes antes de ficar paralisada pelo jorro de emoções que, de tão raro era aparecerem, a enchiam de diversos, incontroláveis e contraditórios sentimentos. Ainda a tremer, pegou no telefone sem fios que repousava em cima da mesa, marcando, inconscientemente, o número daquela que a entenderia melhor que ninguém – Magie.

        No entanto, a amiga não estava em casa. Ann lembrou-se, vagamente, que Magie lhe dissera que pensara sair antes de irem ao jantar. Ouviu a voz calma de Magda no gravador, anunciando que telefonaria assim que ouvisse a mensagem que deixassem depois do sinal.
      ¨¨Bip¨¨
       «Olá Magie… sou eu… podes… podes telefonar-me mal oiças isto? É assim uma espécie de emergência… não, é uma emergência mesmo! Quer dizer, não me aconteceu nada, não estou ferida nem a morrer… mas, ao que parece, é um caso de vida ou de morte… mas… bem… nem sei se é ou não, não percebi, é sobre… fluxos de tempo ou assim… bem, liga-me, sim? É que… és a única que percebe… ai, Magie! Nunca pensei ficar assim só por me lembrar do nome dele outra vez, dá para acreditar?! Mas… Oh! Que disparate. Liga-me só, está bem? Obrigada. Beijinhos.»
         Ann desligou o telefone e dirigiu-se ao quarto, deitando-se em cima da cama, sem se preocupar com o cabelo ainda molhado. Permitiu a si mesma cerca de 10 minutos de divagações, acompanhados de frias lágrimas, que acabaram por ser interrompidas pela estridente campainha do telefone. Levantando-se de um salto, correu para o aparelho sem fios, clicando atabalhoadamente no botão que lhe permitiria atender a chamada.
      – Annie?! – Gritou a voz do outro lado da linha. Aparentemente, Magie ficara muitíssimo preocupada com a mensagem de voz que Ann deixara, minutos antes. – Que se passa? Assustaste-me imenso!
        – Eu… nem sei por onde começar, Magie! … – A voz de Ann, por seu lado, estava fraca e trémula.
        – Annie, acalma-te, em primeiro lugar. Respira. Queres que vá aí? É mais fácil se eu for aí?
       – Sim… sim! Vem cá, vens? É que não sei que fazer… a que horas é a festa?
        – É às 21h30, mas não te preocupes com isso agora. Já estou a chegar aí, não saias de casa, já vou. Vai à cozinha e bebe um pouco de água, sim? Até já.
Magie desligou. Annie deambulou pela casa, enquanto bebia dois copos de água gaseificada. Lembrou-se que ainda estava de toalha de banho e vestiu uma camisola larga e uns jeans velhos que usava para andar por casa. Sete minutos depois, ouviu a campainha da porta tocar duas desesperadas vezes. Distraída, pensou que Magie devia ter quebrado umas quantas regras do Código da Estrada, para ter chegado ali tão depressa.

Ao abrir a porta, deixou que Magie lhe desse um abraço terno. De seguida encaminhou-a para o escritório, onde a deixou ler o e-mail de Greg. Tal como Annie, Magie necessitou das mesmas três leituras para captar o sentido a mensagem.

– Isto… isto… não é possível. Só pode… só pode ser coincidência. Ou então é uma brincadeira de muito mau gosto. – Disse esta frase em voz baixa, mais para si mesma do que para Ann, mas a deixa não lhe passou despercebida.   

– Magie… MAGIE! – Annie teve de gritar para obter a atenção da amiga. – O que é que é coincidência?

– Oh! Bem, nada de especial…– Instada pelo olhar inquiridor de Annie, Magie acabou por falar, suspirando simultaneamente. – É que… recebemos uma carta, lá no escritório.

Recebemos? Tu e mais quem?

– Bem… a carta era… para nós as duas. Mas achei melhor não ta mostrar, pelo menos, não nesta altura… estes meses têm sido péssimos, não parecia… adequado.

– Escondeste-me correspondência porque não te parecia adequado? Magie, acho que tenho o direito de decidir por mim o que é ou não é adequado. Exijo ver essa carta. De quem é? Quando é que chegou?

Magie parecia, pela primeira vez, verdadeiramente pronta a resmungar contra um pedido de Ann. Esta notou que a amiga se mostrava reticente em aceitar e irritou-se ainda mais.

– Magie, eu não sou nenhum bebé! Quero ver essa carta imediatamente! Quem foi que a mandou? Foi este Greg?

– Não, Annie, não foi. Ouve, talvez se falarmos as duas, primeiro, sobre isto… deixa-me telefonar ao homem, pode ser que ele se consiga explicar melhor.

– Não, Magie! Eu quero ler essa carta! Eu tenho esse direito! E agora, fazes o favor de me dizer quem a mandou.

– Mas…

– Não há mas nem meio mas, Magda Harris. Quem foi que a mandou? Estou mesmo prestes a ter um ataque de nervos! Vamos por as coisas nestes termos: ou me dizes ou despeço-te agora mesmo e nunca mais te falo durante o resto da minha vida.

Magda estava notoriamente desesperada. Ann sabia que ela estava mais preocupada com o facto de perder a sua amizade do que com o facto de perder o emprego, mas neste momento estava demasiado zangada para refrear os nervos.

Levantando-se, Magie andou de um lado para o outro no escritório. Depois, como que tomando uma decisão, olhou fixamente para Ann.

– Tu havias de descobrir, mais cedo ou mais tarde. Só não esperava que fosse tão cedo.

Remexendo na mala de mão que trazia, Magda retirou um envelope amarelado e meio amachucado. Mantendo-o na mão, alertou Annie.

– Ouve-me bem. Nem para mim foi fácil ler estas curtas linhas. Aparentemente, segundo disse o estafeta que a trouxe, esta carta foi mandada há 7 anos, com uma ordem específica para ser entregue no nosso escritório no preciso dia 3 de Dezembro de 2013, ou seja, hoje, às 13h15. – Nesse momento, Ann murmurou “Típico: exactamente na minha hora de almoço.” – E a ordem incluía que devia passar por mim primeiro.

– Muito bem. E quem a mandou, há 7 anos, com essas ordens todas?   

 Magie hesitou. Depois, como se não pudesse aguentar mais, desabafou:

– Tu.

 

 

O que achas que aconteceu? Como pôde Ann mandar uma carta a si mesma, sem se lembrar? 


o que consta: ,

escrito por Palavreadora às 14:58
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