Escrevo mais para mim que para alguém em especial... porque me reconheço no que escrevo e porque escrever faz parte de mim
Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2008
O último dia

 4 de Dezembro de 2013, 01h18

Duas horas depois, saíram ambas do escritório de Aidan Kanishka silenciosas e pensativas. Tinham, ainda e sem notarem, o estranho gosto, no paladar, do sabor agridoce do sinistro licor que Aidan lhes servira, a meio da conversa, de uma garrafa escura sem rótulo, que guardava a sete chaves num cofre de aspecto forte, de madeira talhada a ouro.

Ann segurava a pequena mala na mão, balançando-a inconscientemente. Magie olhou para ela, a boca entreaberta para falar. Arrependendo-se, calou-se, voltando a mirar o chão.

Alcançaram o hall em poucos minutos, sem parar para se despedirem dos restantes convidados. Após lhes serem trazidos os casacos, dirigiram-se para o carro, entrando igualmente mudas, sem se aperceberem da figura encapuzada que as seguiu de longe, a partir da esquina do hotel, num pequeno automóvel preto.

As suas mentes vagueavam, indecisas, levando-as, inconscientemente, a apagar as memórias dessa noite, enquanto o álcool da última bebida que haviam tomado, no escritório do décimo oitavo andar, se evaporava.

Ann dirigiu distraída, durante todo o caminho, acelerando em sinais vermelhos e parando praticamente no meio da auto-estrada. Sentia-se tão alienada do resto do mundo que nem estranhou o facto de Magie não reclamar pela sua perigosa condução.

Parou à porta de Magie, como se de um velho hábito se tratasse, e olhou para a amiga, proferindo o que lhe pareciam ser as primeiras palavras dessa noite.

– Magie?... Eu não quero parecer louca, mas… acreditas que, embora tenha a sensação de que passei um serão divertidíssimo contigo, não me lembro de nada do que fizemos?

Entreolharam-se, de olhares vagos e perdidos, e Magie sorriu ligeiramente, como que dizendo “É como eu!”, saindo do carro após um curto “Oh, não ligues. Boa noite.”.

Após deixá-la em casa, Ann estacionou o BMW na sua garagem, não falhando, por pouco, o seu lugar reservado. Ao sair dele, cambaleante, não notou o carro preto que estacionara do lado de fora da garagem, nem o vulto encapuzado que seguia os seus movimentos com uns potentes binóculos de visão nocturna.

Já no seu apartamento, deitou-se sobre a cama ainda feita, ignorando Ruffles, que resmungou, rosnando. Pela sua cabeça passavam imagens confusas, tanto demasiado coloridas como pretas e brancas, mas todas elas difusas, desde a barba branca alourada de Aidan Kanishka à cara sorridente de Alex…

Teve uma noite complicada. Enroscou-se nas almofadas grandes avermelhadas de bordos dourados que enchiam a cama, juntamente com as pequenas douradas, e sentiu as lágrimas escorrerem-lhe pela face, enquanto se agitava, tentando afastar os sonhos que lhe invadiam a mente.

A cara sorridente de Alex insurgia-se constantemente num remoinho de recordações. Alex a atravessar a rua, na sua direcção… Alex a acenar-lhe, enquanto ela lhe devolvia o aceno… O sorriso, o último sorriso de Alex… O carro azul que lhe roubou a vida sem piedade, num dos momentos mais felizes da sua vida…

Este é o "último dia". Fazes alguma ideia do porquê?

 


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escrito por Palavreadora às 16:02
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