Escrevo mais para mim que para alguém em especial... porque me reconheço no que escrevo e porque escrever faz parte de mim
Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2008
Um ‘espirro’ do destino

8 de Novembro de 2006, 06h30

Ann acordou, de manhã, estremunhada – após rever cerca de nove vezes a morte de Alex, num sonho atribulado – e sobressaltada com o som do despertador, ligeiramente diferente do costume. Em vez dos apitos de som computadorizado que geralmente ouvia, o som agudo do telemóvel, ordenado para tocar às 6.30, assustou-a. Não se lembrava de programar o telemóvel para a despertar desde os seus 19 anos. Como continuava sem se recordar de nada do que se havia passado na noite anterior, acabou por não estranhar demais.

Sentou-se na cama, nem reparando que não trazia o vestido vermelho com o qual acabara por adormecer. Calçou os chinelos, colocados sempre do lado direito da cama, e, esfregando a cabeça ligeiramente dorida, avançou para a casa de banho, de olhos ainda praticamente fechados. Não necessitava deles bem abertos, porque, afinal de contas, conhecia o seu apartamento melhor do que ninguém.

Qual não foi o seu espanto quando, após alguns passos cambaleantes, acabou por bater com o joelho direito em algo duro. Desviando-se para a esquerda, onde pensava estar a entrada para a casa de banho, tentou avançar, embora continuasse a embater sempre no mesmo sítio. Obrigando-se a si mesma a abrir os olhos, encontrou, surpresa, a antiga cómoda de madeira velha que fora de seus avós. Recuando para a admirar, levou a mão à cabeça, para tentar impedi-la de girar e de doer, de modo a permitir-lhe pensar com clareza.

                 

Aquela cómoda… o que estava ali a fazer? Deixara-a na casa dos seus pais, quando se mudara para o apartamento.

Olhando à sua volta, obrigando os seus olhos a habituarem-se à escuridão, começou a reconhecer, aos poucos, o velho quarto onde dormira durante quase 20 anos. A cama antiga, de madeira escura, a secretária de madeira semelhante, a cómoda a condizer, as mesinhas-de-cabeceira que ladeavam a cama. Os vários peluches espalhados, peludos, divertidos, mais para decoração do que para a brincadeira. Estranhamente, os livros da escola, que julgava ter arrumado, estavam espalhados na mesa, bem como o estojo do Rato Mickey que comprara na sua ida a Paris. O suporte para a televisão continuava vazio, fixado à parede acima da secretária, ainda coberto com os mesmos bonecos.

Não se recordava de ter conduzido até à casa dos seus pais. Teria feito isso durante a noite, meia sonâmbula, quando já não aguentava rever a morte de Alex? Teria procurado a sua família, na ânsia de consolo, um braço querido que a fizesse sentir menina, criança feliz, outra vez?

Dirigiu-se à casa de banho, agora já sem tropeçar, bem acordada pela admiração. Deixou a água escorrer com força pela torneira do lavatório e encharcou as mãos, atirando o líquido fresco para a face. Localizou rapidamente a toalha de rosto cor-de-rosa, colocada com cuidado sempre no mesmo varão e enxugou a cara. Dobrando-a, novamente, para a colocar no mesmo varão, suspirou e olhou para o espelho rectangular, fixado à parede por cima do lavatório.

Teve de se conter para não gritar do susto. Levando a mão à boca, a fim de o evitar, recuou alguns passos, de olhar mortalmente pálido fixo na superfície rectangular espelhada. O olhar assustado que o espelho lhe devolvia era, nada mais, nada menos, que o do corpo de uma jovem de 17 anos, de cabelos castanhos rebeldes e olhos igualmente castanhos – tudo semelhante ao que possuíra durante a sua própria juventude.

Tocando na cara, no cabelo, no pijama às riscas e beliscando-se diversas vezes, Ann concluiu que era ela e que estava bem viva e acordada naquele momento. Com a única ressalva de que era uma “ela” de 17 anos de idade, e não os 24 a que já estava tão acostumada.

Respirando com dificuldade, ofegante, correu para o quarto, onde acendeu a luz do candeeiro do tecto, que a cegou por uns momentos. 

Dirigindo-se à escrivaninha de madeira, remexeu nos livros e cadernos abertos, acabando por encontrar o que procurava: uma agenda pequena, colorida, semelhante à que usava todos os anos, repleta de apontamentos e pequenos papéis, presos com clipes prateados. Abrindo-a, quase freneticamente, no dia marcado pelo clipe maior, acabou por se sentar na cadeira em frente à mesa, chocada: o calendário marcava o dia 8 de Novembro de 2006. Precisamente um dia antes da morte de Alex!

Talvez o destino tivesse resolvido dar um empurrãozinho a Ann para que não tivesse de perder o seu amigo. Ou talvez o destino se tivesse distraído, permitindo-lhe, por algum tempo, e de alguma forma milagrosa, regressar no tempo para salvar a vida daquele que tanto lhe dizia.

Ann tomou consciência, repentinamente, da missão que tinha pela frente e fez-se luz, na sua mente, quanto ao que Greg Marshall dissera no e-mail: “algo que se poderá passar, se não me engano, ainda esta noite e que, se não for controlado, poderá alterar certos percursos naturais do fluxo do tempo, implicando, inclusivamente, algo relacionado com a morte de Alex.”. Era, com certeza, a isto que o cientista se referia, sem o saber!

Ann sabia que recebera uma inesperada e rara segunda oportunidade, na vida, e não tencionava desperdiçá-la. Não desta vez.

 


o que consta: ,

escrito por Palavreadora às 19:18
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